NECESSIDADES E DESEJOS
(Agosto 2009)
A Tradição Sufi utiliza contos como meios de ensinamento. São contos que passam de geração em geração, e são sempre atuais. Diz-se que cada um tem pelo menos sete níveis de compreensão, portanto o segredo se protege a si mesmo, já que a compreensão é obtida a partir da capacidade de cada pessoa e do grau de evolução em que se encontra.
Um deles é contado todas as quintas-feiras – a história de Mushkil Gusha[1]. Eu o narro há 30 anos e, quando não há ninguém para escutar, conto pra mim mesma.
Neste conto existe uma passagem que diz assim: “se sua necessidade for grande e seu desejo pequeno, você encontrará delicioso alimento”.
Desde a primeira vez que escutei a história, essa passagem me chamou a atenção.
Qual a diferença entre necessidade e desejo?
No meu entender, ao longo do tempo, fui percebendo que a necessidade advém de um lugar mais profundo e essencial, que tem a ver com a própria evolução e conservação da espécie, enquanto o desejo tem relação com a personalidade (ego ou caráter).
Muito frequentemente confundimos as duas coisas, como se fossem iguais e, justamente devido a essa confusão, em diversas situações nos perdemos em querer satisfazer os desejos (que são insaciáveis), supondo que sejam necessidades vitais.
As necessidades, quando buscadas e encontradas, trazem-nos tranquilidade e paz de espírito.
Os desejos satisfeitos nos trazem euforia e satisfação temporária. O maior problema que gera a busca dos desejos é que nos enganamos com essa ilusão de satisfação que, por sua vez, leva-nos a um círculo vicioso de preenchimento/vazio, e que nos mantém presos à voracidade inconsciente de imaginar que mais do mesmo é o caminho para a felicidade, e a solução definitiva.
Os exemplos mais constantes e corriqueiros encontramos no dia-a-dia, e geralmente partem de pensamentos e ideias “brilhantes”, tais como: "um pedaço do bolo de que mais gosto não é suficiente, quero outro e mais outro, até sentir que meu estômago vai arrebentar", "Uma latinha de cerveja me leva a outra e mais outra porque certamente vou me sentir muito mais alegre e feliz... e terei que aguentar a ressaca ou o vexame de dizer coisas das quais me arrependo no dia seguinte", "As roupas que tenho estão velhas e feias, quero outras mais modernas e mais bonitas porque assim vou me sentir muito mais feliz", "Dois pares de sapato não são suficientes, afinal de contas, este que vejo na vitrine é muito mais confortável". E por aí vai... mais e mais e mais coisas... Isso em torno do material... no mundo consumista em que vivemos.
As crianças são compensadas pela ausência dos pais com brinquedos e se acostumam a querer tudo o que veem, aprendendo a exigir e manipular os pais, tornando-se adultos insaciáveis e infelizes, ou temporariamente “felizes” com as coisas que adquirem.
Na vida de relações, os desejos são o motor que impulsiona os mecanismos de controle e manipulação para obrigar outros a nos fazerem felizes. "Se você me amasse de verdade você me telefonaria todos os dias", "Se você me amasse de verdade você me daria isso ou aquilo", "Se você me amasse de verdade você nunca faria isso, nunca pensaria aquilo, nunca agiria assim", "Se você me amasse de verdade você...".
Podemos perceber que os desejos ocupam nosso sistema de tal forma que as necessidades reais não têm espaço para se manifestar.
Quando nos esvaziamos dos desejos, compreendendo que estes nos desviam do que mais queremos realmente, passamos por uma etapa de escassez até que a desintoxicação seja completa, pois os desejos são como vícios que necessitam de uma decisão ferrenha para serem controlados e dominados.
Quando o desejo é pequeno, a necessidade surge de uma forma desconhecida e incompreensível para o intelecto. Portanto, o nosso ego é ludibriado pela palavra “grande”, permitindo assim começar a abrir mão dos desejos grandes, na expectativa de um grande maior ainda. Com este anzol o ego é enganado, e passamos a não mais nos deixar enganar por aquela voracidade que consumia nossa existência.
As necessidades se minimizam e, simultaneamente, surge uma entrega profunda ao Criador e à criação. A pessoa se alinha às leis que dirigem o universo, sendo capaz de uma compreensão que ultrapassa o filtro do centro intelectual habitual, que guiava nossa vida e com o qual estávamos acostumados a conviver.
Após o período de austeridade, podemos vislumbrar uma realidade mais simples na qual nossa capacidade de ser surge em todo seu esplendor. Adquirimos, portanto, capacidade de perceber e integrar a mensagem “se sua necessidade for grande e seu desejo pequeno, você encontrará delicioso alimento”.
[1] Este conto em particular é contado todas as quintas-feiras nos encontros dos grupos que particam os ensinamentos da Tradição Sufi (Naqshbandi). Além dessas ocasiões, as pessoas que conhecem o conto, o narram aonde estejam nas quintas-feiras à noite. Na minha familia, meus filhos contam aos seus filhos, e os pequenos já conhecem o conto, o repetem com prazer, e perguntam o porque de varias passagens, integrando a mensagem ao seu dia-a-dia.
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Última atualização ( Dom, 16 de Agosto de 2009 14:10 )









