(Fevereiro 2008)

Nas relações interpessoais podemos observar uma dinâmica que aparentemente parece produzir relações mais amenas, menos tempestuosas e mais equilibradas.

É o caso de uma pessoa que tem tendência a submeter-se à direção de um outro mais dominante, com maior capacidade de argumentação ou inclusive com maior facilidade de manipulação. Aquela pessoa seria vista como passiva e em geral omissa. Ela pode inclusive mostrar-se bastante agradável e simpática.

Essa é uma forma de usar a permissividade como fator de não assumir os próprios desejos e/ou responsabilidade por suas ações, sentimentos e pensamentos. Torna-se mais fácil simplesmente concordar com o outro e deixar que o outro assuma erros e acertos, permanecendo em um segundo plano.

Esse tipo de relação tende a um “equilíbrio” no qual não há possibilidade de crescimento individual nem evolução da relação, pois cada qual se mantém no automático, inconsciente de suas motivações.

Podemos também reconhecer essa característica de permissividade ou autoindulgência em pessoas que utilizam esse aspecto como uma forma de manipulação semiconsciente, com o objetivo de atingir seus próprios desejos ou necessidades sem declará-los claramente.

Existe ainda a pseudocompreensão do outro, que poderia ser vista como uma forma de manipulação também semiconsciente. Isso se revela quando a pessoa se coloca compreensiva e permissiva, com uma expectativa não expressa de que o outro a compensará por sua “boa vontade” e virtudes aparentes[1].

Nas relações de pais com filhos, a característica permissiva é utilizada por pais que têm medo de perder o amor dos filhos baseados na ideia de que não devem contradizê-los ou impor limites. Esse medo subterrâneo leva os pais a terem dificuldades em orientar, educar, dar referências claras e coerentes aos filhos, resultando na perda da autoridade necessária.

Em muitas ocasiões, atitudes desse tipo geram situações graves de marginalização, em que as crianças ou jovens se tornam rebeldes sem causa, com instabilidade emocional e um futuro prejudicado por hábitos de esperarem do mundo uma permissividade equivalente àquela recebida no seio familiar.

Essa atitude permissiva é baseada na ideia fixa de que ser “boa pessoa” equivale a não demonstrar e/ou expressar claramente seus desejos, necessidades e valores. Consequentemente a pessoa espera, por um lado, que outros adivinhem o que ela não tem liberdade para expor, além de não ter que assumir a responsabilidade por si mesma e por suas relações com os demais. Por outro lado, ocorre um medo de gerar conflitos que, por sua vez, possivelmente criariam rejeição.

Podemos perceber que não há uma presença individual marcante pela qual a pessoa coloque em jogo seus valores, incluindo assumir os riscos que são necessários na confrontação de características básicas nucleares, habituais e repetitivas que perpetuam o conformismo e alienação de si mesma.

Estar presente significa expressar o que sente, o que pensa, o que quer, assim como o que não quer. Dar vazão às suas inconformidades e, pouco a pouco, aprender a administrar as diferenças, divergências e conflitos que possam surgir nas relações – situações essas que trazem vigor e entusiasmo, e que superam em muito as dificuldades e os possíveis “perigos” do movimento – proporciona um sair do conforto aparente do personagem “bonzinho”.

Modificar os hábitos de omissão e constantes permissividades defensivas possibilita o fluxo de energia criativa, fazendo surgir, no lugar de uma pessoa reprimida e sem colorido, um ser vivo e em constante transformação.


[1] - No caso da pessoa submissa, existem duas manipulações: eu não lhe peço nada, mas como sou bom, você vai interpretar meus desejos e me recompensar com vantagens. Por outro lado, eu não lhe peço nada e não me exponho com declarações abertas, ou seja, no caso de pressão, resguardo-me com a carta de “nunca lhe disse isso”.

- No caso da pessoa dominante, a ideia subjacente seria: se você não me expressa a sua necessidade, está me outorgando o poder de decidir por você. Obviamente deduzo que sou eu o mais apto para tomar decisões e me justifico pensando que o que eu decido será melhor para ambos, e é isso o que eu lhe devolvo.

Última atualização ( Qua, 05 de Agosto de 2009 21:33 )