CULPAS
(Agosto 2008)
Trabalhando na área de psicoterapia há anos, continuamente encontro o tema de culpas muito presente.
Podemos separar este tema em dois âmbitos: o que está diretamente ligado ao caráter ou personalidade, quando a culpa faz parte da árvore dos padrões de conduta consequentes de um núcleo fundamental. E um outro âmbito que está mais conectado aos erros que causaram dano a si mesmo e/ou a outros.
No primeiro caso, a culpa é utilizada como desculpa inconsciente para manter uma paralisação na ação. Ou melhor, é um padrão repetitivo no qual a pessoa se mantém dentro de um ciclo vicioso, na maior parte das vezes sem uma causa definida, e que ocupa seu estado psicofísico, causando inclusive doenças, mantendo e aumentando o ciclo.
São pessoas que se sentem culpadas por qualquer coisa que possa parecer (nem sempre é) equivocada ou errada. Funcionam como uma esponja que traz para si a razão ou causa de assuntos ou situações que ocorrem no dia-a-dia, desde pequenas coisas como, por exemplo, um filho que vai mal na escola ou que tenha se machucado, até coisas mais abrangentes, como a casa constantemente em desordem ou um funcionário que não responde às necessidades da empresa.
A avalanche de “culpas” faz parte do repertório mental, seja de forma implícita ou explícita, e restringe de maneira surpreendente não só a capacidade evolutiva como também a expressividade nas emoções, sem falar na paralisação da capacidade ativa.
Uma pessoa desse tipo de personalidade sente como se o mundo inteiro a estivesse constantemente acusando, coleciona dificuldades e problemas e esvazia sua tensão interna colocando-se numa posição de vítima incapaz e incompreendida, esperando que outros reconheçam a carga pesada que leva e, assim, não se responsabilizando pela própria vida.
A angústia é constante, a pessoa carrega pesos desnecessários e se vê paralisada perante sua visão distorcida da realidade e de seus próprios recursos.
É muito comum se ouvir a palavra “culpa” de forma generalizada, como se fosse algo que faz parte da natureza humana, e com isso não há um questionamento dos fatos e das causas, com o objetivo de buscar soluções e renovações.
Parece-me ser também algo bastante vinculado a ditames provenientes de algumas religiões dogmáticas que utilizam a culpa como forma de manter os “fiéis” dependentes e incapazes de empreender o próprio caminho espiritual de evolução. Como se existisse um deus com uma espada constantemente sobre sua cabeça, com um enorme olho que vigia e acusa. A pressão vem aliada à ideia errônea de que, quanto mais a pessoa se deixa dominar e se encolher com tantas “culpas”, mais esse deus castigador finalmente a reconhecerá e salvará. Uma forma não só de manter a dependência, como também manter o poder nas mãos daqueles representantes terrenos desse mesmo deus castigador e ameaçador.
No caso das culpas geradas por atos que verdadeiramente causaram danos a si mesmo ou a outros, pode-se ver que as mesmas geralmente interferem diretamente na autoestima, principalmente se são enterradas no esquecimento ou substituídas por autoengano, visando uma saída “honrosa” que consome grande parte da energia vital, assim como mantém a consciência obscurecida e autoimagens falsas projetadas no exterior que exigem constantemente justificativas para manter o “segredo” considerado imperdoável.
Quando a pessoa entra em um caminho de autoconhecimento, é possível reconhecer a culpa como um hábito repetitivo e um traço da personalidade que pode ser transformado pela atenção e contenção conscientes desse mesmo hábito.
Nos casos das culpas instaladas no psiquismo e que são provenientes de danos reais, durante o processo de autoconhecimento, a pessoa poderá eliminar de seu sistema esses obstáculos ao seu crescimento através do reconhecimento honesto acompanhado da possibilidade de perdoar-se e pedir perdão a quem seja necessário (diretamente ou internamente).
Esse reconhecimento surge a partir da humildade e sinceridade vivenciadas necessariamente com uma testemunha que, por sua vez, é uma pessoa que conquistou a confiança daquele que vivia a culpa de forma tão pesada. Podemos compreender esse peso com base em um pensamento de fundo (em geral obsessivo) de que é impossível ser perdoado, por si mesmo e, muito menos, pelo mundo.
A experiência do perdão é muito importante como meio para recomeçar desde um lugar limpo e saudável. Às vezes as pessoas utilizam o perdão de maneira leviana e superficial, como forma de manter a autoindulgência ou a autopermissividade, e obviamente essa atitude produz algo desgastado, sem sentido e que perde a força de transformação.
Para poder chegar a uma experiência completa com o perdão é necessária uma postura aberta e confiante, vivenciada em companhia. Assim é possível uma expressão profunda, eliminando a ferida que se mantinha apodrecida e apodrecendo, enquanto a limpeza e cicatrzação não ocorram definitivamente.
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Última atualização ( Qua, 05 de Agosto de 2009 21:39 )









