(Janeiro 2009)

Este é um tema que tem estado presente na minha vida há muito tempo, e mais agudamente quando a injustiça social me confronta por meio de pessoas que encontro e que não têm o mínimo para se manterem vivas. Sem nem falar em manter um mínimo de dignidade humana. Falo apenas de ter alimento, teto e saúde.

Sabemos que a grande maioria dos seres que habitam este planeta está em condições subumanas.

Sinto que ser solidário é compartilhar, dividir, dar, intercambiar e, antes de tudo, abrir os olhos e ouvidos, permitir que a sensibilidade toque o coração.

Em resumo, olhar em volta e ver que outro ser humano pode estar necessitando de algo que está nos sobrando. E não penso somente em coisas materiais. Estou falando de qualquer coisa, pois a necessidade mais urgente é de abrir um espaço para ver e se conectar com quem está ao nosso lado e, mais adiante, isso poderia levar a um equilíbrio da enorme discrepância que mantém a injustiça social.

A tendência dos últimos tempos tem sido na direção de um isolamento galopante, e o desejável seria poder transformá-lo em solidariedade.

Não se trata de grandes projetos nem de associar-se a nenhuma ONG, apesar de que essas possibilidades também são valiosas, porém requerem movimentos mais trabalhosos.

Trata-se de cuidar das pessoas que estão no nosso campo de ação e visão, começando pela família mais próxima, seguindo com as pessoas com as quais compartilhamos o ambiente profissional e incluindo amigos, familiares, conhecidos, sem descartar qualquer pessoa que nos serve em lojas, transportes e outros lugares que frequentamos no dia-a-dia. Vale lembrar que frequentemente cruzamos com pessoas que moram perto ou que trabalham no prédio em que vivemos, até mesmo um jornaleiro ou padeiro, com quem compramos habitualmente, são pessoas com as quais podemos exercitar e transmitir um pouco de solidariedade com um sorriso, um momento de parar e dedicar um olhar que veja realmente o outro.

Como ser solidário com cada ser humano (ou pelo menos alguns)? É simples e possível. Basta uma pergunta que esteja baseada em um interesse real, do tipo “como está você hoje?”, até reservar trinta minutos para estar de verdade com um filho, com o companheiro, com o pai, a mãe, com um irmão ou um amigo. Trata-se de incluir conscientemente na agenda de compromissos um tempo para dar o nosso tempo, nossa energia, nossa disponibilidade, nossa atenção a um semelhante.

Na nossa cultura considerada civilizada, em contraposição às culturas primitivas, fomos e somos educados para dizer “bom dia”, “boa tarde”, “com licença”, “obrigado”, “por favor” e algumas outras frases consideradas de “bom tom”. No entanto, essas frases ou palavras saem da nossa boca automaticamente, sem conexão com nenhum sentimento e menos ainda conectadas com a pessoa a quem estão sendo dirigidas.

Nos povos primitivos a solidariedade era algo inato e fazia parte da sobrevivência, pois cada pessoa sabia desde sempre que dependia do outro, assim como o outro dependia de cada um. Estar conectado e atento às próprias necessidades, na mesma medida que com as necessidades do próximo, sabia-se ser de vital importância.

No mundo atual considerado evoluído, moderno, era atômica, era pós-contemporânea, as pessoas foram cada vez mais se desumanizando, esquecidas do que significam as necessidades básicas, confundindo-as com as necessidades impostas pelo mercado, pelo consumismo, perdendo o sono ao pensar que a sobrevivência depende de defender-se de um outro que “certamente quer prejudicá-lo”.

O nosso mundo se tornou um lugar que alimenta ideias de perigo constante, onde existe uma fera selvagem – esta fera sendo o semelhante que habita ao lado –, simplesmente porque a prioridade máxima é proteger os bens adquiridos, e protegê-los daqueles que não foram suficientemente inteligentes para consegui-los. São ideias e pensamentos arraigados, aprendidos e introjetados desde muito cedo, e que não são questionados.

Os valores humanos estão virados de pernas para o ar, e justamente a possibilidade de reconectar-se com o sentimento e a consequente atitude de solidariedade pode nos proporcionar um alivio interno, pois estaremos utilizando capacidades naturais e necessárias para a saúde psicofísica e para a evolução desejada, as quais estão enterradas e inutilizadas.

Olhar para o outro com a atenção voltada para o que ele realmente necessita e, simultaneamente, em contato com a nossa disponibilidade de dar, é algo que abre uma rua de mão dupla, pois ao dar estamos recebendo e, na sequência, a satisfação que se obtém proporciona o bem estar que não depende de nada nem de ninguém.

Obviamente, exercitar a solidariedade não traz resultados imediatos, no entanto, cada movimento nessa direção é acumulativo, e essa reserva interna passa a ocupar o lugar dos medos e da cobiça, que corroem a alma e nos afastam do divino.

Portanto, a solidariedade, tal como a compaixão, são sentimentos humanos que nos encaminham para o que cada ser humano mais quer: ser feliz e estar em paz.

Última atualização ( Qua, 05 de Agosto de 2009 21:40 )