A FUNÇÃO DO DINHEIRO
(Junho 2009)
Desde que me entendo por gente o dinheiro tem sido um assunto central, senão absolutamente fundamental, na vida de todas as pessoas que conhecia.Estamos vivendo uma época em que o dinheiro tem sido sinônimo de status e de poder, principalmente nesta fase critica da historia da humanidade. A maioria das pessoas diz e repete: “com dinheiro se consegue tudo. Todas pessoas tem um preço, é só uma questão de paciencia para averiguar que preço é esse.”
Em alguns círculos de pessoas voltadas para uma busca um pouco além da material, e que obviamente tem o básico garantido, se escuta: “o dinheiro não traz felicidade, mas que ajuda, ajuda.”
Nos ambientes mais carentes, nem se pensa em felicidade, é simplesmente uma questão de sobrevivência, do pão de cada dia.
Através da historia sabemos que não existia o termo “dinheiro”, nem nada do que ele envolve. Quando grupos de pessoas começaram a se juntar, atraídas por terras que possibilitariam colheitas estaveis além de um suprimento de alimento mais confiavel, se desenvolveu um estilo de vida agrario, gerando concomitantemente o trabalho cooperativo, e consequentemente surgiu o elemento “troca.” Cada um trocava com outro alimentos ou materiais, segundo suas necessidades.
Sem entrar em mudanças complexas ocorridas na historia da humanidade, podemos no entanto assinalar características tais como a cobiça, o individualismo, o egoismo, e muitas mais, que por sua vez passaram a ser definidas como uma base “normal” na sociedade humana desde há muitos séculos atrás.
A influencia dessa “normalidade” aceita tem se avolumado a tal ponto que chegamos aos dias de hoje a uma sociedade competitiva/individualista, tipo “o vencedor fica com tudo” ou “a lei do mais forte, ou mais capaz,” aonde o dinheiro (também conhecido como o “vil metal,” e traduzido por bens materiais e poder político) é a causa mais contundente da injustiça social: a impotencia da grande maioria de obter os direitos humanos básicos, qual seja o mínimo necessario para sobreviver (como explicitei em artigos anteriores apontando diversos aspectos que tem dominado o mundo).
Na minha visão, considero o dinheiro como um grande desafio e um meio importantíssimo para possibilitar o alcance de objetivos que nos permitam “estar no mundo sem ser do mundo” (máxima da Tradição Sufi).
Podemos utilizar e transformar o dinheiro em um servidor daquele que temporariamente o possui. Em outras palavras: a função do dinheiro é de ser escravo e não senhor. Consequentemente, nos conscientizando de que tanto o dinheiro, como qualquer outro bem pode estar na mão de um hoje, e simplesmente desaparecer no dia seguinte. Nada nem ninguém pertence a ninguém. Quem imagina que possui algo ou alguém, vive uma ilusão que certamente trará muito sofrimento a si mesmo e a outros.
Partindo dessa premissa, podemos ver com clareza a importancia do dinheiro, pois ele pode trazer consequencias destrutivas ou benévolas na vida de cada um. Ele nos proporciona uma grande oportunidade de exercitarmos o desapego, a capacidade de dar, a capacidade de receber, e refinar a habilidade de avaliar adequadamente o intercambio. O dinheiro nos permite nutrir e ampliar a sabedoria em diversos niveis, eliminando a cobiça, e a ilusão de que “ter é tudo na vida,” abrindo assim um espaço para simplesmente ser.
Retornando à necessidade urgente de um equilibrio igualitario nas condições de vida das pessoas em geral, podemos vislumbrar a possibilidade de questionar nossas necessidades e desejos, que pode transformar a dependencia de ter coisas em uma abundancia interna que naturalmente nos leva a uma disponibilidade de dividir e de construir condições através das quais nós e outros possamos receber o que é necessario economicamente para viver dignamente.
Fui testemunha recentemente de uma situação que pode resumir bastante bem o estado de insconsciencia em que muitos vivem, em contra-partida com os pequenos milagres que ocorrem quando acontece um impacto que confronta crenças não questionadas.
“Na sala de espera de uma clínica estavam presentes uma mulher bem vestida e com os olhos vermelhos de tanto chorar, e quatro outras pessoas lendo revistas enquanto esperavam seu turno de atendimento.
A mulher entra no consultorio do terapeuta. Seu problema: o marido tinha perdido todo o dinheiro que eles tinham na bolsa de valores. Ele estava deprimido em casa, querendo dar um fim à sua propria vida. A mulher chora sem parar. Finalmente, diz que não pode imaginar como vai ser sua vida dali prá frente sem todas as coisas que ela estava acostumada a ter. A sua dor maior era perder as coisas, sem realmente perceber o que se passava com o marido. A questão de companheirismo e ajuda mutua não lhe passavam pela cabeça nem pelo coração.
Quando a mulher sai do consultorio, resolve ir a pé para casa para poder se acalmar e pensar melhor em tudo o que lhe estava acontecendo.
Ela se senta em um banco de uma praça. Ao lado dela está sentada também uma outra mulher vestida pobremente, com um jornal na mão.
A mulher bem vestida começa novamente a chorar. A outra pára de ler o jornal e lhe oferece uma bala. As duas começam a conversar.
A mulher pobremente vestida diz que está procurando um emprego, tem tres filhos para sustentar, e o único dinheiro que ela tem é o valor da condução, que pode ser usado para ir buscar alguma possibilidade de trabalho ou para voltar para casa.
A mulher chorosa, pára de chorar, olha nos olhos da outra e lhe pergunta: o que você sabe fazer?
- qualquer coisa, mesmo que eu não saiba, eu aprendo rápido.
- vem comigo, a minha vizinha está precisando de uma empregada na casa dela.
No caminho as duas continuam a conversar. Nesta conversa acontece o pequeno milagre: uma entende que pode trabalhar para ajudar o marido e a outra agradece a Deus por ter ouvido suas preces.”
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Última atualização ( Qua, 05 de Agosto de 2009 21:43 )









